16 Agosto 2009

Formatura diferente?



Ocorreu no sábado (15/08) a formatura da terceira turma de bacharéis em enfermagem do Centro Universitário Metodista – IPA. Em torno de quatro dezenas de novos enfermeiros colaram grau.

Mais uma entre tantas formaturas que ocorrem neste período. Mas pode-se dizer que esta foi diferente, pelo menos por três momentos.

O primeiro deles, quando uma formando se direcionava para a colação, um menino de sete ou oito anos, sai da platéia e com uma alegria espontânea e radiante delirava e explodia de felicidade. A formanda, interrompe seus passos, olha nos olhos do menino e diz “é para você”. O menininho, então, retorna ao seu assento, satisfeito e alegre. Ele tem síndrome de Down. O diferente ali não era ele, mas os demais que presos a formalismos, escondiam suas alegrias atrás de mascaras eternas. Aquela criança, com toda sua doçura, expôs a centenas de pessoas que ali estavam o verdadeiro significado do amor.

O segundo ato magnífico daquela formatura foi à colação de grau de uma jovem angolana. Amigos e representantes de seu país comemoravam como se estivessem ganhando a final de uma copa do mundo. Angola está se reconstruindo aos poucos e o Brasil através da educação está contribuindo com este processo.

E, finalmente, o fato , para nós viamonenses, que tornou aquela formatura grandiosa. Graduava-se em Enfermagem Zico da Silva, o jovem cacique da aldeia Guarani da Estiva, de Viamão. Mesmo com todas as dificuldades decorrentes da marginalização e da falta do acesso a políticas públicas básicas, Zico venceu. Ele é um erro as estatísticas. Um caso a parte neste país repleto de injustiças e desordens. É um orgulho a velha Setembrina dos Farrapos. Que seu sucesso sirva para profundas reflexões em nossa cidade. Nos últimos anos cresceram, em todo o país, as demandas dos povos indígenas por acesso às Universidades. Fenômeno idêntico percebe-se em outros países da América. No Brasil, inicialmente, essa demanda restringia-se às licenciaturas, tendo em vista as exigências da Lei de Diretrizes de Bases 9394/96 e a busca por capacitação e legitimação profissional. Diversas experiências voltadas para o atendimento de demandas específicas de povos indígenas tiveram início. Mais recentemente surgem demandas para o acesso a outros cursos, tendo em vista, especialmente, a formação técnica em áreas como o direito, saúde, ciências agrárias, entre outras.
Diversas universidades públicas e comunitárias, atentas às demandas indígenas por ensino superior, desenvolvem experiências voltadas ao acesso diferenciado dos índios aos espaços acadêmicos. Porém, essas experiências sinalizam questões que vão além do debate em torno de quotas para atender as demandas por ensino superior desses e de outros segmentos, pois se trata de povos com saberes e processos sociais e históricos diferenciados.

O menininho Down, a angolana e Zico não promoveram uma formatura diferente. Eles mostraram um pouquinho do quanto perdemos a riqueza de nossa diversidade nos mais variados espaços sociais.

A educação necessita praticar saberes interculturais e sustentáveis... E precisamos estar abertos a este diálogo...

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