27 Junho 2009

Desabafo...


Marcio Souza Fernandes*

Eu devia estar contente, ora, sou um rapaz respeitável e ganho todos os cruzeiros do sul que a poluição atmosférica ainda me deixa ver. Eu devia agradecer por ter sucesso na vida, como ambientalista. Eu devia estar alegre e satisfeito por morar em Viamão, mesmo com aquela língua negra de esgoto a separar as Augustas.

Ah! Eu devia estar sorrindo e orgulhoso por ter finalmente lutado por uma vida mais digna e ecologicamente correta. Mas acho isso uma grande pretensão e um tanto quanto arrogante e evasiva.
Eu devia estar contente por ter aconselhado preservação ambiental, desenvolvimento sustentável e responsabilidade social a colegas, amigos, clientes e políticos. Mas confesso, abobalhado, que estou entristecido, porque não é tão fácil assim.
E agora me pergunto: e daí? Eu tenho uma porção de esperanças grandes pra comunicar, e eu não posso ficar aqui desanimado com a devastação continuada da nossa Amazônia, a Mata Atlântida desmatada, parte do nosso país alagado e pela administração pública municipal não ter feito nada na Semana de Meio Ambiente.
Ah! Mas que pessoa chata sou, que não acha nada sustentável. Só falta de cuidado, praia suja, carro ainda soltando CO2, jornais que só tratam a questão ambiental enquanto tragédia. Não estão nem aí para protocolo de Kyoto. Eu acho tudo isso um asco.
É você olhar no espelho da natureza agredida e se sentir um grandíssimo colaborador, ativo ou passivo. Saber que é animal, ridículo e limitado, que só usa 10% de sua cabeça e coração humano. E você ainda acredita que é superior intelectual e entendido politicamente, mas está contribuindo com sua parte para nosso belo desastre ambiental.
Eu que não me sento no tronco de uma árvore decepada pela motosserra, com a boca amargurada, cheia de horror e denúncias, esperando a morte e o deserto chegar. Porque longe das cercas embandeiradas que separam quintais, países e povos, eu vejo, no cume calmo do meu olho, a sombra sonora de um obscuramento global e indolor.
Eu devia, enfim, estar feliz por ainda fazer parte do 1/3 da humanidade que ainda não passa fome, tem água com cloro pra beber, chuveiro com água quente, comida, tevê, celular e comemorar mais um aniversário.
Mas não posso, sem antes desabafar.


*Biólogo, Especialista em Projetos Sociais e Culturais, Educador Voluntário e Ativista Ambiental

1 comentários:

Associação Arte Conjunta disse...

Marcio, moro em Fortaleza,CE,tenho em funcionamento em um pequeno espaço cedido,um viveiro de plantas medicinais, 3 canteiros para horta e uma sala de aula aberta para um espaço verde. Voce poderia formatar um projeto socioambientalcultural para este espaço?
Por favor envie resposta para arteconjunta@hotmail.com.
Obrigada, Elaine Batista